Não existem revoluções na educação

A sensação de novidade que produz qualquer estímulo tende a desaparecer depois de 10 minutos. Com essa ideia na cabeça, Jon Bergmann (Chicago, 1964), reconhecido em 2002 pela Casa Branca como o melhor professor de matemática e ciências dos Estados Unidos, rompeu com a metodologia de ensino tradicional. Deixou de basear suas aulas no discurso para não entediar os estudantes e começou a usar o chamado Flipped Classroom (em português, classe invertida). Desde 2007, os alunos de química do instituto Woodland Park do Colorado começaram a aprender a teoria em casa, com vídeos curtos feitos pelo próprio Bergmann e dedicar o tempo na aula para resolver dúvidas, pesquisar ou trabalhar em projetos.

Segue em Aprender ao contrário é mais eficiente via @elpais_brasil

Olha… Não existe uma única forma de dar aula, já vi professores diferentes, com métodos diferentes agradando, mas esta obsessão pela novidade é algo que me incomoda. Algumas coisas na vida e creio que a maioria, na maior parte do tempo são entediantes mesmo. Quando fiz meu vestibular, eu acreditava que uma vez na faculdade seria só prazer. Não foi. Algumas matérias como cartografia, álgebra e estatística eram entediantes e outras que supunha não serem como geografia agrária também o foram, talvez porque o professor não tenha me agradado. Agora eu pergunto: há como saber disto sem uma pesquisa de opinião (subjetiva) e outra de resultados aferidos em testes (objetiva) e cruzá-los? E o que é válido para uma época e lugar pode ser comparado com outro? A cultura e visão de mundo (ideologia, chamemos assim) não muda também? Já vi de professores que na antiga URSS não havia sinal de troca de aula ou de fim de turno, mas qual o preço de um enregramento desses para a própria sociedade? E no extremo oposto, já ouviste o volume dos sinais tocados em escolas brasileiras?

Releia o 2º parágrafo para ver como se expressa esta nossa ilusão contemporânea, em determinado momento diz que “nenhum estudante é deixado para trás” para ao final completar com “a revolução deste método pedagógico é não assumir que todos os estudantes vão avançar na mesma velocidade”. Muito bonito isto, mas eu enxerguei uma contradição aí, flagrante aliás… Se não há a mesma velocidade (e sabemos que não há, de jeito nenhum) e há ciclos de estudo, como acreditar que nenhum ficará para trás? Qual o problema em repetir de ano quando isto se faz necessário para aprender e reforçar conteúdos? A verdade é que quando se põe esta condição de passar, passar e passar como prioritária se faz em detrimento da absorção do conteúdo, como se o conteúdo fosse algo menor. Ora, vejam como um pedagogo moderno chama um professor tradicional, entre outras coisas: conteudista. E eles enchem a boca para falar como se estivessem apontando uma chaga que se explica e aponta caminhos para sua solução. Besteira total, se não se absorve conteúdo mínimo não há ensino. Agora, se este conteúdo precisa ser discutido e redefinido, eu sou totalmente de acordo… Sou contra obrigar alunos de ensino médio com vocação para exatas estudarem humanas de modo exaustivo, para mim, como já disse várias vezes, eles tem que aprender linguagens que permitam avançar em qualquer área, como gramática, matemática e idiomas.

Pelo que entendi do método inovador “Vire Sua Sala”, em que pese toda tecnologia aplicada (vídeos), ele consiste basicamente em um antigo preceito: a tarefa de casa. E me pergunto, o que há de inovador nisto? Só é inovador porque ele traz de volta algo que foi praticamente abandonado pela maioria de meus colegas. Quanto aos vídeos, eu sou totalmente favorável, meu filho aprende um monte com o YouTube, eu mesmo quando estudo para provas de concurso etc. E fora disto, o conteúdo em geral disponibilizado pelos youtubers é fantástico, seja em um Pirula que aborda diversos temas (focalizando a biologia), seja em um Pondé na filosofia (assim como Karnal e Cortella), seja em música com Márcio Guerra Canto (este divertidíssimo) há um mundo, uma selva de conhecimentos nesta rede social. Isto é inegável e só um toupeira para não admitir que um vídeo da NatGeo ou da Discovery torna uma aula de geografia mais interessante que só o mapa, a lousa e a voz, assim como negar que o mapa, a lousa e a voz foram avanços inegáveis para uma época desde os gregos em que havia o quê? A voz e talvez alguns rabiscos no solo. Não podemos ignorar o que agrega conhecimento, mas não podemos ignorar que a rotina, o treino e o professor que é um comunicador são importantes. E qual matéria que se fala nisto? Nenhuma. Qual livro revolucionário com um método ‘inovador’ que comenta isso? Nenhum. O que me incomoda nessas matérias jornalísticas não é a informação (aliás, bem vinda) de novidades, mas sim este glacé narrativo em que se descobriu a roda, que tudo agora daqui pra frente pode ser diferente quando não executamos corretamente o passado. Esta verborragia é que me dá náuseas.

Eles falam contra o “monólogo do professor e o aluno passivo”… Ah! Que tal fazer matérias em exaustivas aulas para ver, realmente, que o professor raramente é ouvido e se condiciona a passar metade da aula (ou mais) enrolando. A começar pela ridícula chamada… Se perde tempo precioso nessa atividade monástica, sem sentido algum. Que se faça um controle por catracas eletrônicas e se não há recursos para tanto que se faça um por cadeiras vazias etc. Isto, claro, quando a escola não for tão ridiculamente a toa que não faz um espelho de classe com assentos específicos para cada aluno. Mas elas são assim, majoritariamente, a toa.

Para finalizar (mas não acabar o assunto) me pergunto como seria o Flipped Classroom em um treino de basquete? Ou para um estudante de ballet? Policial, bombeiro, médico etc. Será então que só os professores e seus alunos passivos sofrem com uma educação errada e todos os outros podem insistir em antigos modelos? Veja… Reitero o que disse, o método descrito de tarefas com mais criatividade deve ser muito útil, o que me oponho é à visão de achar que isto resolve os problemas e torna tudo muito fácil de fazer, como se todos nós fôssemos burros por não ter tentado algo tão óbvio.

Quanto às crianças que “ficam para trás” não estou advogando que fiquem para trás e ponto, mas que a diferença nos resultados sempre vai existir e se isto se torna um problema para a vida do indivíduo é porque sua visão pessoal de mundo está determinada pela sequência formal de estudos. Aí sim há um problema e não se pode resolvê-lo somente em sala de aula (embora possa se fazer muito aí também). Valorizar habilidades e desempenhos diferentes é papel da escola, mas se não houver um cultura familiar que valorize a evolução individual sem se comparar aos demais como se isto for uma competição teremos só ensino sem educação. Querem mudar isto com vídeos em casa? Acho que agrega conhecimento, mas desconfio de qualquer proposta revolucionária porque a visão de revolução é uma visão que ignora o passado. É uma visão arrogante, no fundo, de que não há nada de bom ou de útil no que já foi feito até aqui.

flippedclassroom

Segundo o autor, este método revolucionaria a educação (washington.edu).

Tens Netflix? Assine, é barato e muito bom. Daí assista à série Rita, uma professora na escola pública dinamarquesa. Imperdível. TÁ AÍ! Uma tarefa pro jornalista que escreveu esta matéria: assistir à série.

 

Anselmo Heidrich

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