Para que serve o poder público?

 

Certa vez andava com meu filho na nossa rua, uma dessas ex-servidões em Florianópolis e ele me perguntou por que ela estava toda esburacada. E eu aleguei a ação da chuva, do tempo etc. Daí, na maior ingenuidade me disse, “por que não arrumamos então?” E eu respondi que não era nossa tarefa, que a prefeitura cuidava disso que já pagav… “Prefeitura? O que é prefeitura?”, ele me interrompeu. Essa, eu confesso, foi a pergunta mais difícil que tive que responder. Como explicar algo tão abstrato a uma criança de 3 anos (hoje já com 4) que existe algo que não é alguém ou alguns que são incumbidos de fazer algo por nós, porque nós financiamos e deixamos de fazer nós mesmos o que, se juntássemos esforços locais faríamos melhor e mais rápido? Enfim, passou e faz tempo que não andamos na nossa rua e preferimos trilhas onde fica mais fácil, muitíssimo mais fácil falar de princípios de geomorfologia do que deveres do agente público.

Dias atrás conversava com minha professora, educadora física, uma pessoa que já fez três cursos superiores e não para de estudar. Ela tem um estúdio de pilates aqui no bairro e quer abrir uma clínica de fisioterapia, mas a prefeitura cobra dela que faça adaptações no seu imóvel, pois o segundo andar só tem um lance de escadas e deve ter um elevador para cadeirantes. Mas só a base para ele custa algo em torno de R$ 100.000,00 e só tem três empresas autorizadas pela prefeitura a executar a obra. Adivinhe se não tem esquema aí… Mas espere, não são dois andares, então a situação se resolveria se no andar térreo ficasse a fisioterapia e em cima, o pilates. Simples, qualquer ser racional deduziria isto e, claro que ela mesmo sugeriu isto. Como eu disse, qualquer ser racional, o que não é o caso de um fiscal da prefeitura que age sob outra óptica, outra racionalidade totalmente irracional para um ser humano que busca adequar meios a um fim específico com objetividade e sem deturpações. Ou sem dar chance para a corrupção.

É de um contrassenso absurdo, isto sem falar nas taxas anuais para operação que ela tem que manter já que não tem o habite-se porque não há esgotamento sanitário, assim como não há no bairro, assim como não há para 90% da cidade etc. E claro que haveria recursos se não houvesse tantas pessoas empregadas nesses “cabides públicos” sem fazer absolutamente nada, basta ver o que já foi transferido para a companhia de saneamento, a Casan.

Esta é a sina de ser um brasileiro, cujo poder estatal te obriga à ilegalidade. Faz alguns meses também, a Comcap, companhia que cuida da coleta de lixo e manutenção das vias públicas ficou, nada mais nada menos que 14 dias sem recolher nosso lixo na rua. Reclamação vai, reclamação vem por via telefônica, ouvidoria no site etc., nada resolveu. Mas nesses tempos de exposição on line (abençoado seja Zuckerberg!) procurei o facebook dos caras e em meia hora, o próprio diretor da empresa estava ligando para mim. É fácil deduzir onde e como passa a maior parte do tempo os funcionários da companhia… Inventaram uma mentira grosseira para mim, de que a rua estava muito esburacada, o que não procede. Não que não tenha buracos, pois como já disse, tem mesmo, mas não mais do que a maioria das outras ruas do bairro (a minha é uma das melhores). Daí perguntei se o motorista era novo e era mesmo só que o picareta culpou a via por ter corrido muito e arremessado um de seus colegas da caçamba. Como ficaram com medo de que eu expusesse toda a história vieram no dia seguinte, mas para justificar seu erro vieram podando galhos de árvores (que não tinha sido alegado como motivo do caminhão ter que desviar). Reclamei novamente em seguida porque mesmo assim, nada de coleta de novo! Vieram no mesmo dia às 22h!! Pergunto-me, para que serve o poder público brasileiro?!?!

Não fiquem achando que me refiro, exclusivamente, à Florianópolis. Se isto ocorre é porque resido na cidade há 11 anos. Em meus tempos de S. Paulo também passei por algumas… Naqueles verões na capital chovia aos cântaros e, numa dessas tormentas, os galhos das árvores da rua pressionaram os fios da rede de luz para baixo e batata! Queda de luz generalizada com direito à queima de aparelhos eletrônicos. Que que eu fiz? Liguei para a prefeitura para que providenciasse uma poda imediata, afinal estávamos só no começo da temporada de chuvas e recebi um número do protocolo do atendimento, cujo serviço deveria ser feito em um máximo de 45 dias! Sério?! Ah! Que bom né? Poderia ser um ano… Sempre temos que olhar para o lado positivo da coisa. Inconformado, liguei para a empresa que fazia a distribuição de luz, recém privatizada, AES-Eletropaulo e acredite ou não, em ½ hora os caras estavam cortando os galhos que tocavam nos fios. Não dá para entender quem reclama da privatização. Ou é mal informado ou tem interesses escusos a defender. Como sou obsessivo, próximo ao prazo limite de um mês e meio que me prometeram na prefeitura de S. Paulo, eu liguei novamente para saber se viriam e pasmem! Eles haviam perdido meu protocolo e tive que fazer outro para mais 45 dias! Ou seja, um total de 3 longos meses se passariam para o caminhão da prefeitura com seus incompetentes vir fazer algo, é mole? O verão com suas chuvas torrenciais teria acabado e os parasitas nem aí para quem os sustenta. É simplesmente ofensivo.

Quando os funcionários da AES estavam trabalhando com a poda dos galhos fui investigar e me disseram que quando os americanos compraram a companhia demitiram de cara, metade dos funcionários e viram que funcionava igualmente. Depois demitiram mais metade e continuou funcionando igual e fizeram mais uma vez… Para funcionar igualzinho! Em resumo, com 1/8 do staff da companhia mantinham a mesma produção, eles aumentaram muito a produtividade da empresa. Antes de pensar no lucro que tiveram, pense no prejuízo que nós tínhamos como pagadores de impostos por um serviço público de péssima qualidade. É este o raciocínio que devemos ter, mas como o cidadão brasileiro está tão acostumado (adestrado seria melhor) a achar que o serviço público é isso mesmo, só percebe o que os outros, empreendedores estão lucrando como se isto significasse um prejuízo para si. Uma visão completamente distorcida da realidade.

Florianópolis, São Paulo são as cidades que me lembro melhor, Porto Alegre já saí faz tempo, mas me recordo de meu pai dizendo que algum coitado apaixonado por árvores plantou várias em seu quintal, numa velha casa na Rua Marquês do Pombal, no bairro Moinhos de Vento. Daí, com o tempo é normal querer cuidá-las, fazendo a devida manutenção, mas não! Alguma repartição pública com uma pomposa sigla se dizendo ‘ambiental’, cujos funcionários iletrados passam o dia coçando resolveu sair do buraco mofado onde se escondem para proibi-lo. Típico, não? Pois é… E o sujeito ficou lá, com árvores velhas, apodrecidas prontas pra cair com estes vendavais pondo em risco a vida das pessoas. Mas, o que importa aos burocratas, já que zelar pela vida alheia não tem nada a ver com a tarefa monástica de preencher processos.

Vocês podem estar pensando: este cara escolhe problemas a dedo, exceções que confirmam a regra de que o serviço público no Brasil funciona meritoriamente. E eu pergunto vocês acreditam nesta mentira que contam pros outros? Na verdade eu estou descrevendo o corriqueiro. Quando eu fizer um artigo “o serviço público brasileiro que dá certo” é que estarei tratando de exceções que confirmam a regra. Então se alguém nunca simpatizou com teorias anarquistas de organização social saibam que é um bom momento para tanto. Não são minhas primeiras opções, mas no Brasil de hoje se impõem como necessidade, não há como confiar nos serviços públicos brasileiros que via de regra são um lixo mesmo. Mas por que é assim? Em primeiro lugar devido ao corporativismo com este monte de leis protecionistas visando garantir os direitos dos trabalhadores, mas direitos esses que se opõem aos direitos de seus consumidores, clientes, usuários etc. A sociedade brasileira opta por garantir direitos a si, enquanto categorias profissionais e não como indivíduos tratados com isonomia. Esta é nossa característica, cuja cultura política solapa qualquer projeto de desenvolvimento.

Esses dias um amigo meu teve a moto roubada aqui perto de onde resido. Obviamente, na vã esperança de que nossos serviços de segurança fizessem algo digno de seu nome, se guiou para a delegacia de polícia fazer um B.O. Chegando lá teve que ouvir um sermão do escrivão praticamente dizendo que ele era o responsável porque “deu mole” ao não ter alarme, nem cadeado na moto. Acabaram discutindo e o escroto do funcionário jogou a caneta com força em cima da mesa ao que meu amigo revidou com mais força ainda após assinar. O clima azedou ainda mais e pasmem, o covarde com distintivo ainda fez uma pose ao se levantar para que a camisa subisse mostrando sua arma. Paspalho! E é desses paspalhos que estamos cheios por aqui. Digamos então que isto não corresponda à maioria, que seja, mas a quem podemos recorrer nesses casos? Que tipo de proteção temos? É tão inusitada uma cena dessas em países onde o estado de direito realmente existe que mesmo um servidor escroto desses jamais faria isto, se não estivesse mentalmente perturbado, que as chances de sofrermos este tipo de ameaça são mínimas. Aqui não, basta não baixar o olhar para algo crescer e sermos intimidados por gente que não se coloca no seu lugar e nesse caso não sabe o que é proteger e servir. A mentalidade não é de proteger e servir, mas de intimidar e se servir.

Bem… Eu acredito no liberalismo e, embora eu ache os sonhos anarco-capitalistas um tanto apressados, sem que tenhamos desenvolvido uma cultura política e instituições começo a rever meus conceitos. Não há como melhorar isto a que chamamos estado brasileiro. Esta podre estrutura estatal precisa ser extinta.

Deixo vocês com um belo engraçado vídeo desses que sonhamos que um dia seja nossa realidade:

 

Anselmo Heidrich

 

Se há algum mérito na esquerda…

O fracasso das ideologias de esquerda no Séc. XX não pode ter contra-exemplos do Séc. XVIII, com a Rev. Francesa e Americana a Rev. Gloriosa, no Séc. XVII por serem resultados dos movimentos “de esquerda” de sua época, contra uma aristocracia e estado que subjugavam as liberades. O século passado teve o lugar da esquerda tomado por movimentos de ideologia coletivista diferente daqueles anteriores pautados nas liberdades civis, individuais. Se ainda flexibilizarmos mais o conceito abarcando a Social-Democracia, o primeiro país a aplicá-la teria sido a Nova Zelândia, país colonizado por muitos britânicos do movimento operário, cujo governo surgiu no último ano do Séc. XIX. A Social-Democracia fortalecida no século seguinte era vista, no entanto, como um “desvio à direita” pelos mais puristas dos movimentos comunista e anarquista, tanto que socialismo passa a se definir como uma oposição dentro do movimento operário. A definição marxista de socialismo como um ‘estágio’ para o comunismo não era consensual dentro do movimento operário, lembremos, mas ela se tornou hegemônica na interpretação intelectual latino-americana devido a sua formação sectária.

Tais observações se fazem necessárias para contextualizarmos o que vem a ser ‘direita’ ou ‘esquerda’. Dependendo do contexto histórico podemos ser uma coisa ou outra… Eu não me defino como “de direita”, embora não me sinta incomodado em ser chamado assim por um esquerdista, de jeito nenhum. Acho didático, aliás, apesar de empobrecedor… Quando vemos a miríade de movimentos direitistas, muitos dos quais de tom claramente estatistas (proibição das drogas, contrários ao casamento gay, antiambientalistas etc.) me posiciono, claramente, como um “acorde dissonante”. Recentemente fui chamado de ‘comunista’ por uma fanática, porque muito do que vem a se chamar de ‘direitista’ hoje em dia é uma massa acéfala de naipe religioso que transmutou deus e diabo para a esfera política resumindo tudo em Ocidente vs. Comunismo ou, para alguns ainda, Ocidente (cristão) vs. Islã. Ignoram solenemente a contribuição (decisiva) do Renascimento e do Iluminismo à formação do Estado Laico que permitiu um maior desenvolvimento do capitalismo. Esquecem, alguns convenientemente… Que o capitalismo não iria longe sob o peso da Igreja devido à oposição desta ao comércio fora de sua direção e restrição:

“(…) Decididamente os comerciantes ocupam grande espaço na Idade Média desejosa de mutação. Apesar da Igreja. Sejamos justos: o preconceito anticomercial não é unicamente dela. Vai ao encontro de uma inveterada desconfiança popular contra o intermediário, que vende o que não foi produzido por ele mesmo: ‘Capelista que vende de tudo nada faz’, diz o provérbio. A Igreja não se priva de ir ainda mais longe.
“Ela decreta a proibição da atividade ‘comercial’ a seus próprios membros. O cânone 142 do Código de Direito Canônico é drástico: ‘É proibido aos clérigos exercer, para si ou para outrem, atividade nos negócios ou no comércio, seja em seu benefício, seja em benefício de terceiros’.
“A proibição não tem em mira os leigos, mas predomina a ideia de que não se pode ser, ao mesmo tempo, comerciante e bom cristão: ‘Raramente, talvez nunca, um comerciante pode agradar a Deus’” (Alain Peyrefitte. A Sociedade de Confiança: ensaio sobre as origens e a natureza do desenvolvimento. Rio de Janeiro : Topbooks : IL, 1999, p.90. Grifos meus).

Acho importante estudarmos as ideologias, mas mais como representações e entendimento do mundo pelos diversos grupos do que explicações de fato. Ideologias podem ser poderosas forças motivacionais, mas o curso dos acontecimentos dificilmente sai como previsto idealmente. Por isto, o que quer que o movimento operário tenha defendido durante os séculos XIX e XX não foi obra de sua exclusividade, mas resultado de uma conjunção de forças que sem a acumulação capitalista da qual muitos se opunham, não teria sido possível realizar. Avanços legislativos tais como horas trabalhadas, direito à férias, licença-maternidade etc. atribuídos como resultado dos movimentos de esquerda não teriam sido possível sem o avanço daquilo que os comunistas mais demonizavam: a acumulação capitalista. Se isto pode ser visto como “mérito da esquerda”, também o é todo resultado disso desalinhado da produtividade, isto é, sem preocupação com o caixa, a responsabilidade fiscal e a capacidade de distribuir após o crescimento sustentável economicamente. Preceitos caros à chamada ‘direita’ são consenso hoje no mundo desenvolvido, mas não para sociedades marcadas pelo populismo.

E o Brasil sofre com essa sanha legiferante, na qual uma casta informal, os juristas definem para si o que é o desenvolvimento. Se há um lugar onde o ethos capitalista não chegou, foi neste cancro estatal brasileiro.

 

Anselmo Heidrich

 

 

Despacito, despacito, o mundo melhora

O cientista cognitivo Steven Pinker, professor da universidade de Harvard, é um dos autores que mais forneceram dados em defesa dessa tese. Seu livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza (Companhia das Letras) busca demonstrar que vivemos na época mais pacífica e próspera da história. “As pessoas, em todos os cantos do mundo, estão mais ricas, gozam de mais saúde, são mais livres, têm mais educação, estão mais pacíficas e desfrutam de uma maior igualdade do que nunca antes”, diz Pinker ao EL PAÍS. “Todas as estatísticas indicam que melhoramos. Em geral, a humanidade se encontra melhor que nunca.”

O escritor e historiador sueco Johan Norberg é outra das vozes destacadas dessa corrente de pensamento. Defende em seu livro Progress: Ten Reasons to Look Forward to the Future (“progresso: dez motivos para olhar para frente”) que o capitalismo é o sistema que mais fez o ser humano progredir, e que vivemos no melhor momento da nossa história. “O mundo está melhorando rapidamente. Na verdade, nunca antes o mundo melhorou tão rápido. A cada minuto desta conversa, cem pessoas saem da pobreza”, argumenta.

Paradoxos do progresso: dados para ser otimista via @elpais_brasil

 

Esta visão que o S. Pinker e outros citados tem, eu já tinha visto com o B. Lomborg (se lembra dele? das discussões ambientalistas?) e é fato reconhecido nos meios liberais que as sociedades estão melhorando mesmo, embora haja aqueles com situação crítica, eles não representam a maioria, nem abaixam a média do desenvolvimento mundial. E ele também está certíssimo sobre a desigualdade não ser o problema, pois se falta água na África do Sahel, se há baixa ingestão de calorias no Subcontinente Indiano, isto não se dá porque suas elites bebem ou comem mais, mesmo porque se forçássemos uma redistribuição destes recursos, provavelmente ainda faltaria o suficiente para a maioria. A questão é outra, se refere ao tipo de sistema e isto não tem nada a ver com comparar Capitalismo com Socialismo e outras dicotomias simplistas, mesmo porque há tantas sociedades diferentes, até díspares que entram no bojo do que chamamos “capitalismo” que soa inócuo discutirmos a posse dos meios de produção como causa última do desenvolvimento. Poderíamos enumerar o grau de livre-comércio dessas sociedades; sua segurança jurídica; o acesso à propriedade privada; o grau de burocratização; a criminalidade; a transparência pública; a liberdade de expressão etc. Quantas sociedades chamadas de capitalistas tem estes detalhes em muito baixa conta? Várias. Portanto, se faz necessária uma discussão mais técnica e detalhada que aponte as falhas.

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Como lidar ideologicamente com os dados? Basta ignorá-los? (Imagem: El País).

Alexis de Tocqueville já observara que o capitalismo contém um paradoxo, o paradoxo da riqueza, pois só em sociedades afluentes vamos encontrar pedintes nas ruas. Alguém por acaso já viu mendigos pedindo esmola no sertão paraibano? Claro que não, eles estão acumulados justamente onde a riqueza aflui, nos grandes e prósperos centros urbanos. Então, é absolutamente natural que a pobreza persista. A questão não é, no entanto, se ela existe ou não, pois ser pobre, em termos relativos, até eu sou. A questão de verdade é quanto desta pobreza pode ser considerada absoluta, isto é, que não atinge as condições minimamente satisfatórias de sobrevivência. E aí, cada dia mais, seu número diminui proporcionalmente. Proporcionalmente, sempre é bom observar, pois em termos absolutos podemos ter mais pobres do que em 1950, pois também temos uma população absoluta maior do que em 1950. Mas reitero, quanto a fatia desses considerados pobres cresceu? Se é que cresceu…

O ocaso das ideologias explica algo assim? Para mim ele reflete sua irrelevância em termos práticos. Uma vez configurado o fracasso total de qualquer ideologia de esquerda ter tido sucesso no século XX, antigos apologistas como Daniel Bell vaticinaram o fim das ideologias, mas eu me pergunto, só ele que não viu isto antes? Basta ver a baixa qualidade de um veículo produzido na era soviética em comparação com qualquer outro da antiga Alemanha Ocidental ou na força de trabalho chinesa puxando arados no lugar de bois durante o período comunista para sabermos que aquilo foi uma farsa do início ao fim. E dentro do capitalismo, quem insiste em não mudar, física e condicionalmente tende a padecer na miséria. Recentemente doei muitas roupas a uma família da serra catarinense com quem minha mulher mantém contato. E lhe perguntei o que acharam, ela me surpreendeu dizendo que a mãe dos garotos usava meias diferentes, ambas com furos nos dedões, mas feliz da vida por manter os pés aquecidos durante o inverno. Agora pergunto, onde isto acontece em uma favela brasileira? Nas “comunidades” em que jovens usam celulares e os poucos sem acesso à internet em suas casas ainda frequentam lan houses. A realidade mudou muito e estes pobres desconhecidos das periferias brasileiras tem sua realidade ignorada pela maioria de nossos (pseudo-)cientistas sociais que deveriam estar mapeando-os, classificando e quantificando suas condições e hábitos. Muito pouco disto é feito, é uma vergonha manter uma casta de inúteis professores de humanas nas universidades que contribuem com mera produção ideológica ultrapassada. Puro lixo teórico.

Aos trancos e barrancos, o mundo melhora sim. Não como desejaríamos, em velocidade e qualidade, mas evoluiu positivamente. O que não podemos ter em mente é a mera comparação com os demais, sejam países, regiões, estados, cidades etc. Temos que manter nossas comparações, fundamentalmente, com nós mesmos, pois é aí que buscamos forças para ir além. Por isto, o orgulho não é um bom sentimento, ele sugere uma estagnação, um “estou satisfeito porque sou melhor do que…”, ao invés da ambição, esta sim, uma condição do espírito que te impulsiona, sempre e te faz conquistar mais e mais para si e para os outros com quem interage.

 

Anselmo Heidrich

 

Não existem revoluções na educação

A sensação de novidade que produz qualquer estímulo tende a desaparecer depois de 10 minutos. Com essa ideia na cabeça, Jon Bergmann (Chicago, 1964), reconhecido em 2002 pela Casa Branca como o melhor professor de matemática e ciências dos Estados Unidos, rompeu com a metodologia de ensino tradicional. Deixou de basear suas aulas no discurso para não entediar os estudantes e começou a usar o chamado Flipped Classroom (em português, classe invertida). Desde 2007, os alunos de química do instituto Woodland Park do Colorado começaram a aprender a teoria em casa, com vídeos curtos feitos pelo próprio Bergmann e dedicar o tempo na aula para resolver dúvidas, pesquisar ou trabalhar em projetos.

Segue em Aprender ao contrário é mais eficiente via @elpais_brasil

Olha… Não existe uma única forma de dar aula, já vi professores diferentes, com métodos diferentes agradando, mas esta obsessão pela novidade é algo que me incomoda. Algumas coisas na vida e creio que a maioria, na maior parte do tempo são entediantes mesmo. Quando fiz meu vestibular, eu acreditava que uma vez na faculdade seria só prazer. Não foi. Algumas matérias como cartografia, álgebra e estatística eram entediantes e outras que supunha não serem como geografia agrária também o foram, talvez porque o professor não tenha me agradado. Agora eu pergunto: há como saber disto sem uma pesquisa de opinião (subjetiva) e outra de resultados aferidos em testes (objetiva) e cruzá-los? E o que é válido para uma época e lugar pode ser comparado com outro? A cultura e visão de mundo (ideologia, chamemos assim) não muda também? Já vi de professores que na antiga URSS não havia sinal de troca de aula ou de fim de turno, mas qual o preço de um enregramento desses para a própria sociedade? E no extremo oposto, já ouviste o volume dos sinais tocados em escolas brasileiras?

Releia o 2º parágrafo para ver como se expressa esta nossa ilusão contemporânea, em determinado momento diz que “nenhum estudante é deixado para trás” para ao final completar com “a revolução deste método pedagógico é não assumir que todos os estudantes vão avançar na mesma velocidade”. Muito bonito isto, mas eu enxerguei uma contradição aí, flagrante aliás… Se não há a mesma velocidade (e sabemos que não há, de jeito nenhum) e há ciclos de estudo, como acreditar que nenhum ficará para trás? Qual o problema em repetir de ano quando isto se faz necessário para aprender e reforçar conteúdos? A verdade é que quando se põe esta condição de passar, passar e passar como prioritária se faz em detrimento da absorção do conteúdo, como se o conteúdo fosse algo menor. Ora, vejam como um pedagogo moderno chama um professor tradicional, entre outras coisas: conteudista. E eles enchem a boca para falar como se estivessem apontando uma chaga que se explica e aponta caminhos para sua solução. Besteira total, se não se absorve conteúdo mínimo não há ensino. Agora, se este conteúdo precisa ser discutido e redefinido, eu sou totalmente de acordo… Sou contra obrigar alunos de ensino médio com vocação para exatas estudarem humanas de modo exaustivo, para mim, como já disse várias vezes, eles tem que aprender linguagens que permitam avançar em qualquer área, como gramática, matemática e idiomas.

Pelo que entendi do método inovador “Vire Sua Sala”, em que pese toda tecnologia aplicada (vídeos), ele consiste basicamente em um antigo preceito: a tarefa de casa. E me pergunto, o que há de inovador nisto? Só é inovador porque ele traz de volta algo que foi praticamente abandonado pela maioria de meus colegas. Quanto aos vídeos, eu sou totalmente favorável, meu filho aprende um monte com o YouTube, eu mesmo quando estudo para provas de concurso etc. E fora disto, o conteúdo em geral disponibilizado pelos youtubers é fantástico, seja em um Pirula que aborda diversos temas (focalizando a biologia), seja em um Pondé na filosofia (assim como Karnal e Cortella), seja em música com Márcio Guerra Canto (este divertidíssimo) há um mundo, uma selva de conhecimentos nesta rede social. Isto é inegável e só um toupeira para não admitir que um vídeo da NatGeo ou da Discovery torna uma aula de geografia mais interessante que só o mapa, a lousa e a voz, assim como negar que o mapa, a lousa e a voz foram avanços inegáveis para uma época desde os gregos em que havia o quê? A voz e talvez alguns rabiscos no solo. Não podemos ignorar o que agrega conhecimento, mas não podemos ignorar que a rotina, o treino e o professor que é um comunicador são importantes. E qual matéria que se fala nisto? Nenhuma. Qual livro revolucionário com um método ‘inovador’ que comenta isso? Nenhum. O que me incomoda nessas matérias jornalísticas não é a informação (aliás, bem vinda) de novidades, mas sim este glacé narrativo em que se descobriu a roda, que tudo agora daqui pra frente pode ser diferente quando não executamos corretamente o passado. Esta verborragia é que me dá náuseas.

Eles falam contra o “monólogo do professor e o aluno passivo”… Ah! Que tal fazer matérias em exaustivas aulas para ver, realmente, que o professor raramente é ouvido e se condiciona a passar metade da aula (ou mais) enrolando. A começar pela ridícula chamada… Se perde tempo precioso nessa atividade monástica, sem sentido algum. Que se faça um controle por catracas eletrônicas e se não há recursos para tanto que se faça um por cadeiras vazias etc. Isto, claro, quando a escola não for tão ridiculamente a toa que não faz um espelho de classe com assentos específicos para cada aluno. Mas elas são assim, majoritariamente, a toa.

Para finalizar (mas não acabar o assunto) me pergunto como seria o Flipped Classroom em um treino de basquete? Ou para um estudante de ballet? Policial, bombeiro, médico etc. Será então que só os professores e seus alunos passivos sofrem com uma educação errada e todos os outros podem insistir em antigos modelos? Veja… Reitero o que disse, o método descrito de tarefas com mais criatividade deve ser muito útil, o que me oponho é à visão de achar que isto resolve os problemas e torna tudo muito fácil de fazer, como se todos nós fôssemos burros por não ter tentado algo tão óbvio.

Quanto às crianças que “ficam para trás” não estou advogando que fiquem para trás e ponto, mas que a diferença nos resultados sempre vai existir e se isto se torna um problema para a vida do indivíduo é porque sua visão pessoal de mundo está determinada pela sequência formal de estudos. Aí sim há um problema e não se pode resolvê-lo somente em sala de aula (embora possa se fazer muito aí também). Valorizar habilidades e desempenhos diferentes é papel da escola, mas se não houver um cultura familiar que valorize a evolução individual sem se comparar aos demais como se isto for uma competição teremos só ensino sem educação. Querem mudar isto com vídeos em casa? Acho que agrega conhecimento, mas desconfio de qualquer proposta revolucionária porque a visão de revolução é uma visão que ignora o passado. É uma visão arrogante, no fundo, de que não há nada de bom ou de útil no que já foi feito até aqui.

flippedclassroom

Segundo o autor, este método revolucionaria a educação (washington.edu).

Tens Netflix? Assine, é barato e muito bom. Daí assista à série Rita, uma professora na escola pública dinamarquesa. Imperdível. TÁ AÍ! Uma tarefa pro jornalista que escreveu esta matéria: assistir à série.

 

Anselmo Heidrich

Subindo no Vagão

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Acabo de assistir à Homeland, esta fantástica série sobre espionagem, terrorismo e Oriente Médio, imperdível mesmo. Quem já pode assistir vai ficar na memória a excelente atuação de que interpretou Carrie Mathison (Claire Danes), a agente bi-polar da CIA, bipolar mesmo, pois sofria desse transtorno mental. A série tem quatro temporadas e ao cabo da terceira, a personagem principal – Carrie – perde quem se apaixonara, um fuzileiro (e ex-congressista… confuso?), Nicholas Brody (Damian Lewis) que havia se convertido ao islã e se preparava para cometer um atentado. Claro que neste ponto ele já estava em pleno dilema e atuava coagido, “cooptado” pela agência de inteligência. Na quarta e última temporada (até o momento, Netflix no Brasil) que, não sei porque me disseram que seria a menos interessante, pois achei justamente o contrário, o cenário é menos americano, iraniano e se passa em pleno Paquistão contra o Talebã. Nesta temporada, os dilemas de quem tem que atuar pela Razão de Estado, muitas vezes se aliando com antigos inimigos intensifica. Enfim, é muito para comentar aqui, mas uma coisa ficou clara para mim, quando tudo termina e um novo acordo parece se configurar entre um terrorista antes procurado e agora, um aliado da CIA, que vê nele alguém com potencial de estabilizar a região. “Que mundo nós criamos que nenhuma opção é correta?” pergunta Carrie, ao seu comparsa e nova paixão, Peter Quinn (Rupert Friend).

Corta agora… 2016 foi um ano de avanço e choque para o Brasil. Choque no freio ao projeto de poder do PT, cujas manifestações de rua foram um forte combustível para queimar a legenda e pressionar nosso judiciário. E um avanço paulatino, pois muita coisa não mudou e só vai mudar se os movimentos políticos que encabeçaram a pressão pelo impeachment e outros que , porventura venham surgir, evoluírem em propostas e métodos mais claros do que precisa ser mudado no país: nossa opacidade institucional, hipertrofia estatal e desigualdade sim, mas não a desigualdade socioeconômica que tanta alardeia nossa imaginativa esquerda e sim, a desigualdade jurídica. Em que pese nossas pollyannas, mais conhecidas como “operadores do direito” gostam de acreditar no contrário.

Alguns dos críticos, simpatizantes petistas, simpatizantes inconfessos e niilistas em geral dizem “o que mudou?” Realmente, se buscarmos uma revolução, nada mudou, apenas amenizou. Mas quando uma revolução foi bem sucedida no Brasil e na maior parte do mundo, mesmo? Este é o cuidado que devemos ter, a sedução revolucionária, como a de um enfermo com câncer que prefere acreditar em panaceias em um chá milagroso de medicina oriental a enfrentar uma arriscada cirurgia com pós-operatório complicado. O que irá mudar para as complicadas alianças da CIA com um Trump, só o tempo dirá, mas é este tipo de experimento que queremos com a sociedade brasileira? Ainda mais com o tipo de posologia intervencionista que fanáticos de direita (que não saem da frente do micro, nem tiram seus pijamas fedidos) propõem? Uma luta armada sem meta, sem projeto, apenas com o vago mote de acabar com a corrupção e defender o Brasil? Por acaso isto é diferente, em carga sentimental, do que a esquerda – os “comunistas” – fazem? Todos que não rezam a cartilha de direita são comunistas para eles. Esta gente sofre de verdadeiro tenesmo intelectual…

Se há algum sentido em marcarmos o tempo serve para perceber mudanças, tímidas que sejam, mas não para abandonar o passado, jogando fora o bebê com sua aguinha suja. Por que nos embasamos tanto em marcações de tempo chamadas datas? Justamente porque temos necessidade de entender uma transformação com uma expectativa de mudança, uma esperança. Mas quando se fala em ciclo da vida, não se espera por esta ascensão progressista, mas sim em um nascimento, crescimento, ápice e a inefável morte. No fim das contas, parece que nada mudou em nossa perspectiva de tempo, mas talvez sim em um prazo que não vislumbramos. É como se estivéssemos em um trem vendo a monótona paisagem da planície se descortinar ao nosso lado na janela, mas se pudéssemos subir no teto de um dos vagões e sentir toda sua amplitude e panorama teríamos outra visão, outras conclusões.

Esta necessidade de entender ciclos, além da esperança que constitui o que realmente não sabemos, mas desejamos, também corresponde ao nosso medo do desconhecido quando achamos que entendemos a mudança, que temos uma previsão de algo que está por vir. Daí que era esperado que nas manifestações e movimentos que formamos ao longo desses anos (de 2014 para cá), os mesmos fantasmas ressurgissem, ciclicamente, para nos atormentar, a esquerda burra, com seus sindicalistas de Q.I. de psitacídeo e uma direita igualmente limitada, paranóide e intervencionista. Se analisarmos por este ângulo, a pergunta vem novamente, o que mudou? Talvez nada de significativo, se não imprimirmos nenhum novo significado ao que percebemos. Ter fé para ver pode ser mais do que negar a fé que traz nossa visão, pode ser o que falta para experimentarmos algo novo. Despacito, despacito… Como deve ser todo ensaio e erro.

Anselmo Heidrich

A Corrupção da Geografia

por Anselmo Heidrich[i]

 

 A maioria dos novos revolucionários são essencialmente ao que parece, “liberais brancos”, prontos a lamentar os supostos males da sociedade e a mostrar seus corações sangrando como emblemas ou antigas gravatas escolares – e mais rapidamente ainda fugir do trabalho duro que o diagnóstico e a ação exigem. Um pequeno grupo de radicais marxistas, procura ferver a sopa dos lamentos dos liberais. Em nenhum grupo há qualquer engajamento profundo no sentido de produzir mudança construtiva através de meios democráticos. (…) Se qualquer deles fizer a “Nova Geografia” dos anos 70, eu estou fora.[1]

B.J.L. Berry apud R.J. Johnston, Geografia e Geógrafos.

Quando adolescente me impressionavam dois campos do conhecimento, a natureza e a sociedade. Vez que outra tinha sérias dúvidas sobre qual faculdade cursar, a biologia ou a sociologia. Justamente por isto, eu optei pela geografia que, para aqueles que a conhecem minimamente, sabem que se trata de uma área de intersecção. Esta mescla de conteúdos é o campo propício para estudos envolvendo impactos ambientais causados por atividades produtivas, adaptação das sociedades às condições físicas do meio etc. E se formos observar com maior detalhe, a geografia se assemelha à medicina na sua estruturação interna… Quando acometidos com alguma patologia, nós consultamos um clínico geral para depois procurarmos um especialista. Exatamente assim é o trabalho de um geógrafo (naqueles países onde se faz valer este título) que, dependendo do trabalho a ser feito se requer um estudo mais aprofundado, seja em algum ramo da geografia física ou geografia humana (“cultural”, como também é chamada nos países de língua inglesa). Imagine se tiveres que escolher a melhor localização para uma distribuidora de alimentos ou uma planta fabril que tenha melhor dispersão de poluentes: podemos contatar um geógrafo com conhecimentos específicos em climatologia ou, no primeiro caso, alguém que conheça modelos de localização industrial, geografia econômica etc. Enfim, se trata de um belo e útil campo do conhecimento, mas qual não foi minha surpresa ao descobrir que isto era não só mal visto, como justamente o foco de uma crítica pesada na época que cursei minha faculdade, lá por meados dos anos 80. A razão disto é que a geografia, assim como muitas ciências e saberes disciplinares são acometidos por modas, mas não necessariamente o que Thomas Kuhn chamava de paradigmas científicos. A diferença é que, ao invés de ter sido um modelo de pesquisa e pressupostos, crenças e valores partilhados por um longo período, o marxismo na Geografia se caracterizou por um “voo de galinha”, justamente por ser curto, efêmero e fraco. Suas motivações foram mais políticas, de oposição a uma determinada conjuntura ou sistema político-econômico que de metodologia científica propriamente dita. Embora marxistas gostem de acentuar sua base metodológica – o materialismo histórico e dialético –, a grande maioria trata de enfatizar temas específicos em seus estudos (a “desigualdade”, a “exploração” etc.) sem saber exatamente o que é dialética ou entender a necessidade (admitida pelo próprio Marx) de desenvolvimento das “forças produtivas” (tecnologia) para sua posterior evolução social. Atualmente novas tendências, típicas modas ou tendências de longo prazo (como os estudos ambientais) competem com a deturpação marxista da geografia. Só que a malfadada “geografia crítica”, como os geógrafos marxistas gostavam de denominar sua corrente, era a moda dominante na academia quando tive o desprazer de estar cursando minha faculdade. E ela não vinha como uma “visão alternativa”, mas com todas suas mazelas obscurantistas como bônus que poluem e infectam a cabeça de um estudante, a começar pelo desprezo por tudo que poderia ser embutido dentro do rótulo de tradicional, isto é, tudo que a geografia tinha produzido até então. Mas como? Diria alguém, um saber que tem ligações com a natureza, o meio ambiente, clima, solos, vertentes, relevo etc. pode ter influência de uma já combalida Filosofia da História? Pois é, vocês não podem esquecer que a geografia tem sua seção humana e lá pelos anos 60, nos EUA, os acadêmicos daquele país foram seduzidos por um discurso que era, dada a conjuntura, bastante conveniente à contracultura e oposição ao establishment. Mas, por mais que se critique a ordem econômica e ideológica do momento, ela ainda era democrática, ao contrário do marxismo que, como sabemos, cerceia internamente a liberdade de pensamento antes de se configurar em uma ordem institucionalizada através da cristalização de conceitos tidos como inquestionáveis. Também não esqueçamos que os vícios de linguagem que, o marxista tão bem expressa através de clichês servem como explicações automáticas… Tive colegas de curso que aliavam esta pretensão de saber a sua preguiça crônica de estudar ao dizer “que não havia mais diferenciação territorial”, “estava tudo igualado, uniformizado pelo capital” etc. Frases grotescas, até mesmo para um estudioso marxista soam como uma mistura de sermão religioso e marketing de refrigerante de tão vulgares e generalizantes, nesta periferia intelectual em que se transformaram os cursos de humanidades no Brasil.

O marxismo é sedutor? Sim, muito, mas isto não quer dizer verdadeiro. Uma filosofia que apresente pressupostos nobres, de compaixão pelo outro, mas que ao mesmo tempo não veja a filantropia como um modo de ajudar o próximo, mas combine uma lógica produtiva com redenção coletiva não só é contraditória, como suspeita de portar algum tipo de vírus intelectual. Sobretudo, se considerarmos a mente juvenil ávida por soluções rápidas e totalizantes, que tornam a universidade um celeiro ideal para raposas disseminadoras de ideologias comprometidas com a submissão intelectual e a desinformação e a deturpação como métodos.[2]

Totalidade… Repare bem nesta palavra, que é uma categoria central para o método marxista, cuja capacidade de sedução reside na pretensão de enxergar a todos os problemas da vida social sob um método unívoco capaz de hierarquizá-los e apontar o processo causal (que, aliás, também é apenas um). Veja que se fôssemos realmente capazes de tal façanha, também teríamos o dom da predição. Quer coisa mais maravilhosa? Um método que não só explica tudo até aqui, como também é capaz de dizer tudo que tenderá ocorrer a partir de certo ponto na linha de tempo da história de toda humanidade. Qualquer semelhança com gurus do apocalipse (mas, em versão progressista-evolutiva), não é mera coincidência. Por inferência lógica, se pudermos atuar na raiz dos problemas (daí o apreço que os marxistas têm por serem chamados de radicais), as soluções se dariam automaticamente como um processo natural, após um momento de ruptura que, nada mais é senão a revolução.

Se vocês repararam, as categorias marxistas de análise aqui elencadas como totalidade, processo natural, ruptura e revolução se encaixam em aspectos que atribuímos à Geografia e sua prima, a História.[3] Como eu já disse, os vários campos do saber que integram a síntese geográfica procuram abranger as indústrias, a produção agrícola, as cidades, os transportes, a demografia, a inter-relação dos estados nação (geopolítica) e, de outro lado, a geomorfologia, a hidrografia, a climatologia, a biogeografia etc. Portanto, uma filosofia que diga que tudo isso pode dar um bom mix caberá como uma luva às pretensões científicas de mostrar que a geografia é uma “ciência de respeito”. Afinal algo que ressentia muito os geógrafos era este aspecto de “colcha de retalhos” que fazia a geografia não parecer uma ciência una, mas sim um agregado de várias ciências.

A esta altura da prosa alguém poderia perguntar então, mas por que a medicina não tem este problema? Ora! Médicos não estão preocupados, em primeiro lugar, em serem reconhecidos no meio acadêmico, se não forem eficazes em sua lida. Pode até ser que um ou outro indivíduo deseje muito tal status, mas não será muito difícil atingi-lo sem a comprovada eficiência em suas áreas de atuação. Se não estão preocupados, em primeiro lugar, em salvar vidas, perde-las pode acabar com suas carreiras. Por outro lado, se amanhã ou depois, algum médico for reconhecido por inovar em determinado campo ou subcampo médico, isto é um bônus a sua profissão. Já para profissionais que atuam na área do planejamento (ambiental, urbano, regional etc.) como os geógrafos, a academia, em países como o Brasil, tem sido a porta de entrada para a atuação no mercado. Deveria ser o contrário e isto até está mudando, graças ao capitalismo e as tecnologias de sensoriamento remoto, mas deixemos isto para outro artigo… Enfim, vocês conseguem imaginar a cabeça de um estudante com a competição profissional com temas como, p.ex., o substrato rochoso quando confrontado com um geólogo? Que não conhece tanto sobre biomas quanto um biólogo? Que não sabe prever as intempéries com relativa precisão quanto um meteorologista? Ou, em outro campo, que não sabe analisar a produção industrial como um economista? Que não conhece detalhes agroecológicos como um agrônomo? Que não tem conhecimento técnico sobre urbanismo e infraestrutura como arquitetos e engenheiros? Fica difícil, né? Acontece que a particularidade da geografia foi (e é), justamente, não saber profundamente de seções do conhecimento, mas conhecer a integração desses elementos na análise territorial seja esta, local, regional ou global. Parece simples, mas numa época de valorização das especialidades, o marxismo ofereceu aos professores e alunos ressentidos com a competição uma resposta negacionista, isto é, “nada disso que está aí fazendo sucesso no mercado vale, porque estes saberes fazem parte da lógica do Capital, que é essencialmente espoliadora, destrutiva etc.” Qualquer semelhança com estelionatários ou a redenção espiritual via dízimo não seria mera coincidência.

Nem sempre foi assim, a dita geografia moderna, enquanto cátedra acadêmica se inicia no século XIX, na Alemanha. Filha do casamento entre história e naturalismo, a geografia deve muito a estudiosos como Karl Ritter e Alexander Von Humboldt, cujos esforços para integrar os campos de conhecimento em que eram especialistas levou a sua afirmação acadêmica. Mais tarde, na virada do século, Friedrich Ratzel enfatizaria a visão que mais tarde chamaríamos de determinismo físico ou geográfico, na qual a natureza mais do que influenciava, mas exercia forte influência no desenvolvimento das sociedades. Embora haja controvérsias sobre qual seria o grau desta influência ou causalidade, seus próprios textos não deixam dúvidas de que enxergava como algo muito além do que costumamos admitir hoje em dia. Prova disto está nesta passagem em que comenta a obra de Montesquieu, o qual:

“(…) afirma, sem muita demonstração, que os climas quentes exercem uma ação depressora e os frios uma ação fortalecedora, e disso deduz que nos primeiros as mulheres se encontram em um nível inferior, os homens são menos corajosos, o povo é mais facilmente excitável, enquanto nos climas frios ocorre o contrário; e isto ele afirma tendo por base observações incompletas, entre as quais recolhemos frases como esta: ‘para excitar a sensibilidade de um moscovita seria necessário arrancar sua pele’. Ele atribui o pouco progresso das legislações orientais à indolência produzida pelo clima e às escassas necessidades a brandura daquelas populações que, sempre por efeito do clima, tomam bebidas excitantes; e, do mesmo modo, explica a proibição do vinho imposta por Maomé. A mais importante entre todas estas considerações é a constatação, renovada mais tarde com maior profundidade por H. Th. Buckle, de que nos países quentes medra o despotismo e nos países frios a liberdade; desse conceito, Montesquieu faz derivar o fundamento natural da escravidão nas regiões tropicais. Os capítulos relativos ao solo começam pela fertilidade, que é o que para ele diferencia as populações da planície daquelas da montanha. Os povos insulares estão, para Montesquieu, mais inclinados à liberdade que os continentais. Entre uma abordagem desse tipo e a de Ritter ou do próprio Herder a distância é grande. Pode-se dizer que, precisamente nessa matéria, nem Montesquieu nem Voltaire formularam ideias que já não tivessem sido expressas pelos antigos e, além disso, não chegaram a criar conceitos melhores que aqueles já conhecidos. Seu mérito, que permanecerá para sempre, foi o de terem promovido o rápido desenvolvimento daqueles conceitos e aplicarem-nos adequadamente, além de terem exercido enorme influencia sobre seus próprios contemporâneos” (Moraes, 1990, p. 36. Grifos meus).

Desta visão, determinista, irá derivar um conceito fundamental em Ratzel, o Espaço Vital – lebensraum – para o qual, uma população e sociedade crescentes demandam a expansão territorial de seu estado. Não precisa ser muito perspicaz para perceber onde isto irá parar, já que estamos falando das primeiras décadas do século XX…[4] A visão de que a natureza mais do que influenciava, mas determinava a vida das pessoas, assim como a necessidade de conquista e expansão territorial para o nascente estado alemão ganhou corpo.

Em contraposição, o francês Paul Vidal de La Blache confrontou este determinismo físico com seu possibilismo: a natureza apresenta condicionantes que abrem possibilidades cabendo aos seres humanos escolher e aproveitar as melhores oportunidades. Vejamos esta inspiradora passagem de seu Princípios de Geografia Humana:

“Uma nova economia da natureza teve tempo para substituir a antiga. O desaparecimento da floresta cedeu lugar ao mato e a mudança das condições de luminosidade desalojou algumas espécies que eram retidas em seu interior, incluindo a temível mosca tsé-tsé, diversa de outras espécies. Em outras regiões são arbustos como os maquis ou o cerrado que sucederam à floresta tendo outras consequências, transformando tanto o ambiente como as condições econômicas. Vislumbramos um novo campo de opções quase ilimitadas para experimentação. Ao estudarmos a ação do Homem sobre a Terra e seu estigma impresso sobre as áreas de ocupação com séculos de idade, a Geografia Humana tem uma dupla finalidade. Não só fazer um balanço das alterações, com ou sem a participação humana, cuja singular redução de espécies ocorre desde o Plioceno. E também desenvolver um conhecimento mais aproximado de toda biosfera, pois examinando as alterações ora em curso se torna possível prever sua evolução. A respeito, o presente e o futuro das ações do Homem, agora um ‘mestre das distâncias’, armado com tudo que a ciência coloca a seu serviço, excede em muito as ações que nossos distantes antepassados puderam exercer. Felicitemo-nos porque a empresa de colonização que nos trouxe a glória permitiu que a imposição de quadros rígidos da Natureza desse margem para obras de restauração ou transformação que estão em poder do Homem” (La Blache, p. 14-15. Tradução e grifos meus)[5].

O que se observa entre os textos de Ratzel e La Blache é que, apesar das diferentes perspectivas e noções de causalidade de transformação e adaptação humanas ao ambiente, ainda há espaço para relativizações e dúvidas concernentes à extensão de seus enunciados científicos. Como quase toda escola, seja acadêmica, religiosa etc., a radicalização se dará com seus sucessores e seguidores. A sutileza e beleza intuitiva dos textos tem relação com uma época onde a ciência (social) procurava se firmar, com mais humildade do que costumamos ver hoje em dia. Mas ambas correntes geográficas, seja a determinista ou a possibilista apresentam um traço comum bastante significativo e, costumeiramente ignorado… Fosse pela fala do alemão ou do francês, eles serviam a seus respectivos estados. E mesmo que não fosse este o motivo deliberado desses estudos, eles acabavam sendo aproveitados com tal finalidade. Não havia como ensejaria um pensamento de boa estirpe liberal, estudos com ênfase no crescimento econômico via trocas internacionais, inter-regionais e em nível escalar mais próximo. O agente máximo de organização e atuação social, ainda é o estado. E por “estado”, leia-se o conceito de estado-nação, por mais idealizada que seja a nação.

Quando se fala em compromisso com a nação é mais do que um ato voluntário. Tratava-se de uma determinação, uma metáfora biológica para uma época em que se substituem explicações oriundas do divino pelo natural. A propósito, vejamos este comentário sobre Ratzel, um dos mais importantes autores e primeiro em sistematizar o conhecimento que viria a ser conhecido como Geografia Política:

“Sua formação inicial não foi a de geógrafo, tendo feito o curso de zoologia em Heidelberg, onde sofreu a influência direta de Haeckel e, através deste, do darwinismo, chegando a publicar alguns artigos de forte conteúdo naturalista-evolucionista.

Ao mesmo tempo, como intelectual preocupado com os destinos da Alemanha, participava de uma série de atividades acadêmicas voltadas para a questão nacional (como a Liga Pangermanista). Após o retorno de sua viagem aos EUA, que muito o impressionou e cuja influência será notória em seus estudos (em 1880 escreveria Os Estados Unidos da América do Norte), Ratzel alterna estudos sistemáticos de geografia geral (como a sua famosa Antropogeografia, de 1882) com vários pequenos estudos sobre problemas geográfico-políticos, culminando com a sua obra maior (Geografia Política, de 1897).

Preocupava-o essencialmente o que avaliara como a ‘unificação malconcluída’ da Alemanha, desde o processo que se iniciara sob o comando de Bismarck, de fato, malgrado a centralização via constituição de um Estado forte, mas que não resultara de um processo revolucionário clássico, tal qual ocorrera na vizinha França, a Alemanha, apresentava-se, até o início deste século, extremamente fragmentada, tanto socialmente como do ponto de vista de sua organização político-territorial.

Como se verá adiante, essa situação repercutirá em muitas das análises de Ratzel sobre o papel que caberia ao Estado nesse processo. Além do mais, assim como a maioria dos geógrafos e ‘homens de Estado’ do país, tinha plena consciência do atraso político e da situação de ‘inferioridade’ da Alemanha em relação às demais potências europeias, em especial à Inglaterra e à França, principalmente na questão das colônias de além-mar.

Um outro problema que marcou profundamente não apenas as concepções gerais de Ratzel e dos geógrafos, mas da maioria dos intelectuais alemães, foi a dos ‘povos alemães’ fora da Alemanha, concentrados principalmente na Europa de Centro e de Leste” (Costa, 1992, p. 29-30).

Mesmo que não houvesse uma defesa explícita do imperialismo, não é difícil imaginar como a argumentação em prol do estado-nação, sobretudo tendo premissas naturalizantes ou biologicistas não pudesse derivar nisso. Esta moda, paradigma, se preferirem não duraria indefinidamente. Com a estabilização das relações internacionais, o que justamente veio a reboque do ignorado comércio e capitalismo mundiais, uma geografia pragmática haveria de nascer.

O pragmatismo que se avizinhava no pós-guerra, pela reconstrução dos países europeus e, do outro lado do Atlântico pelo avanço capitalista e tecnocrático não deixaria a Geografia isenta de sua cota de influência. Em um texto de discussão metodológica e histórica da disciplina, dois professores de Londres comentam:

“Não pretendemos, sem dúvida, sugerir tenha sido prematura a especialização. Ao contrário, foi natural e necessária. E sem o grande acervo de fatos que produziu, não se poderia ter esperanças de alcançar uma síntese geográfica satisfatória. As próprias explorações primárias ainda estavam por terminar quando Humboldt e Ritter redigiram sua obra. O interior da África não seria conhecido, até 1880, sem qualquer acepção que se possa ter, ao passo que uma grande parte da Ásia, sobre a qual escreveram os dois pioneiros, permaneceu, em essência, terra povoada de mistérios até que a desvendaram, na segunda metade do século XIX, os grandes exploradores russos, ao lado de Sven Hedin, Aurel Stein e Richthofen.

Mais importante para o futuro da Geologia, como da Geografia, terá sido, talvez, o trabalho inicial do Levantamento Geológico Americano, as explorações de Hayden e Powell no Oeste árido dos Estados Unidos. Exploração fundamental, quase satisfatoriamente cientifica quanto aos seus métodos, foi igualmente a da expedição do Challenger, empreendida de 1870 a 1873, que estabeleceu, pela primeira vez, a carta das profundidades dos oceanos e examinou, sistematicamente, as características e os movimentos das águas de superfície. Ela proporcionou também os dados para o primeiro levantamento geral satisfatório do clima dos oceanos. Humboldt percebera o valor das linhas isotérmicas e as utilizara, tanto quanto o permitiram os escassos dados então disponíveis. Foi Buchan, porém, meteorologista da expedição do Challenger, o primeiro a desenhar mapas mundiais de temperatura, pressão, etc., os ancestrais das cartas que nos são familiares, encontradas nos atlas modernos.

Igualmente importante para as últimas finalidades da Geografia foi a publicação, pelos Governos, do levantamento de mapas topográficos e geológicos desenhados em grande escala. A França e a Grã-Bretanha já estavam cobertas de mapas topográficos satisfatórios por volta de 1870, e o levantamento geológico primário de ambos os países encontrava-se bastante adiantado. Desenvolvimento paralelo ocorreu em outros países civilizados. O advento dos serviços meteorológicos, durante a segunda metade do século, assinalou o aparecimento da Meteorologia Sinóptica e da Climatologia Local pormenorizada. O crescimento do vulto das estatísticas oficiais sobre população, produção e comércio acrescentou maior soma de material à síntese geográfica em perspectiva, num grau que chegou a ser quase desconcertante.

À luz desse acervo de conhecimentos imensamente aumentado, a obra de Humboldt e Ritter se afigura, de um modo inevitável, desprovida do adequado equipamento. E a tarefa de seus sucessores parece acrescida a um nível quase impossível de atingir-se quanto à sua amplitude e à suas dificuldades. Os homens revelaram poderoso e persistente interesse pelo seu meio, tornando-se, sob múltiplos aspectos, mais conscientes do mesmo. No entanto, o modo de ser desse progresso parecia residir naquela ‘divisão do trabalho’ tão vivamente louvada pelos economistas e tão manifestamente frutífera no campo da produção material. Seria possível a um homem, ou a um grupo de homens, segundo as palavras de Ritter, ‘reunir e organizar, numa bela unidade, tudo quanto sabemos acerca do globo?’ Para muitos, essa tentativa pareceu demasiado ambiciosa, se não quimérica; seria o peso suportado por Atlas, numa versão moderna” (Wooldridge, 1967, p. 21-23. Grifos meus).

O relato que acabamos de ler é sobre uma geografia em estado de arte. Saibam que ela não morreu, continua vivíssima, mas por paradoxal que seja, não ganha atenção e representação nos centros acadêmicos como ocorre, efusivamente, no mercado privado. Estranho, não? Não. Para quem acompanha a intensa ideologização acadêmica nos EUA e Europa de pós-guerra e no Brasil a partir dos anos 70, isto soa muito natural. Mas observem como o autor dos excertos acima se surpreende com a produtividade alcançada e atribui isto, como uma descoberta fosse à divisão de tarefas tão “louvada pelos economistas”, em suas palavras. Para aqueles, como nós, que nos guiamos pelo liberalismo enquanto filosofia e arcabouço teórico-metodológico para muitas de nossas análises, o fenômeno é amplamente conhecido desde Adam Smith. Não por acaso, este foi seu apelido, Geografia Pragmática, ou Teorética,[6] como veio a ser conhecida mais tarde no Brasil. Esta contribuição foi acentuada pelos anglo-saxões, que desenvolveram uma geografia com modelos estatísticos para alocação de recursos e assessoria governamental ao planejamento econômico. Malgrado, como já observamos, foi no seio da própria sociedade americana que o marxismo, chamado de geografia crítica se alastrou para o resto do mundo. E, como não poderia deixar de ser, no chamado Terceiro Mundo “deu como um inço”, campo fértil para doses cavalares de ressentimento político associada a uma imaginação socialista. O impressionante é que, apesar de vivermos em épocas com maior disponibilidade de dados para esclarecimento da realidade, a fé, pois o marxismo não deixa de ser um tipo de fé… Avançou e continua avançando com outras roupagens, seja ambiental, cultural etc., do que se deduz que se tratando de obscurantista, de pouco ou nada adianta um debate racional. Resultante disto, temos mantras como este que, repetidos à exaustão pelos professores marxistas para que se tornem verdades inquestionáveis, sequer tentam sua comprovação empírica ou refutação de teorias opostas:

“A rápida expansão do modo capitalista de produção dá-se a partir do aprofundamento da divisão do trabalho que vai desembocar nas ‘forças produtivas capitalistas’. Ao atingir esta etapa o capital ampliar-se-á ampliando a base de suas próprias contradições estruturais, como a que antepõe as duas classes fundamentais de capitalismo no seio mesmo do processo do trabalho. Assim, o capitalismo precisará crescer para além de suas fronteiras e seus níveis qualitativos.

No plano do processo do trabalho a expansão capitalista traduz-se como elevação constante da composição orgânica do capital, isto é, um aumento em ritmo maior de emprego de máquinas que o ritmo de emprego de operários. Uma vez que a mais-valia é a origem do lucro e que é o operário e não a máquina quem produz mais-valia, tende a haver um declínio contínuo da taxa de lucro. Isto não cocorre em vista de que o próprio processo que gera a tendência produz contratendências. Uma delas é a concentração da produção em caráter monopolista; uma segunda é a fusão dos monopólios industriais e bancários que promove o nascimento do capital financeiro; uma terceira é a exportação de capitais que é ilustrativa a expansão ferroviária em escala mundial; uma quarta é a integração da produção agrícola à industrial que força para baixo a reprodução da força de trabalho (mais-valia relativa) e para cima a taxa da mais-valia; uma quinta é a deterioração da qualidade do produto para acelerar a velocidade das trocas; uma sexta é a expansão do circuito mercantil para a periferia do capitalismo; uma sétima é a socialização, via Estado, das despesas de inversões com capital fixo.

Em suma, o capitalismo passa da fase concorrencial para a fase monopolista, entrando na fase imperialista. Primeiro na fase imperialista de redivisão dos mercados mundiais e, a seguir, na fase do capitalismo monopolista de estado.

Crescendo sobre a periferia o capitalismo internacionaliza-se, reproduzindo em escala mundial a base sobre a qual nasce historicamente: proletarizando o homem, alienando-o da natureza e dos outros homens, do saber e do poder” (Moreira, 1981, p. 102-104. Grifos meus).

A Geografia Crítica, também conhecida por Geocrítica surge em 1970 na França e rapidamente se espalha para outros países, onde iria despontar no Brasil na década de 80. O que nós acabamos de ler acima é simplesmente marxismo, nada de novo até então, mas o detalhe é que a ciência geográfica, nesta visão, se submete totalmente à metodologia e filosofia marxistas. Dentre as várias críticas que podem ser feitas, ao marxismo mesmo, como sua teoria do valor-trabalho ou o “etapismo histórico” configurado nos parágrafos acima (que desconsidera importantes particularidades regionais), o mais gritante é o que é feito com a geografia mesmo. A riqueza dessa ciência está na avaliação das diversidades, uma vez que se apresenta como um estudo com base na superfície da terra, “ciência dos lugares”, como chamava La Blache. Nesta visão “crítica”, a geografia é apresentada de modo grotescamente simplista, pois todas as regiões e áreas passíveis de avaliação na Terra se submeteriam a esta “lógica do Capital”. Para que isto apresente um mínimo de coerência há que se descartar a presença da história particular de cada nação, povo ou etnia; se descartar o peso institucional e estatal; religiões então, nem pensar, não passam de superestruturas, representações mentais para defender interesses (da “classe dominante”). Algo assim não parece geografia… E não é mesmo. Lembrem-se da bela escrita de Paul Vidal de La Blache dizendo que a Geografia não é a “ciência dos homens”, mas a “ciência dos lugares”, que envolve a humanidade, mas em sua relação com o ambiente. Como fica a análise ambiental na geocrítica? Não existe. Para marxistas genuínos, a 2ª natureza (como Marx chamava as transformações ocorridas nos territórios) suplanta e submete completamente a 1ª natureza (a original, “natureza natural”). Até aí reconhecemos a interferência de um sobre o outro, mas como Marx não pretendia constituir uma especialidade do conhecimento e sim uma “ciência da história” que contivesse um método capaz de abranger qualquer tradição de pensamento, os estudos ambientais desaparecem. Não é preciso dizer que os ambientalistas nunca absorveram esta visão pura do marxismo, mas sim do esquerdismo anticapitalista. Pode se dizer que o marxismo entrou na temática ambiental por vias indiretas, antes pelo ativismo político do que por sua estruturação acadêmica. Ou seja, o pensamento marxista se metamorfoseou, se tornando um “marxismo heterodoxo” e é, justamente, por isto que ele resiste. Se fosse o contrário, uma visão original, muitos não o adotariam porque iriam perceber sua defasagem em relação à realidade, a confrontação das teorias marxistas com a realidade etc., mas o que subsiste com força é o aspecto puramente ideológico, normativo, daquilo que “não aconteceu mas que pode acontecer, afinal, o verdadeiro comunismo nunca existiu de acordo com a teoria marxista…” Quantas e quantas já não ouvimos isto? Mas daí eu vos pergunto, quem lê integral ou parcialmente a obra marxista? Aqueles especialistas que, na sua maioria, já são adeptos ou simpatizantes. Portanto, uma de nossas principais tarefas para extirpar esta chaga é “traduzir”, divulgar o cerne da obra marxista para que, como uma vacina, mostrar aos novos leitores o que realmente lhes manipulará ao repetir clichês e enunciados sem maiores discussões e considerações.

O “papa da geocrítica” no Brasil foi Milton Santos, um acadêmico com discurso conveniente e, muitas vezes, metafórico para a militância de esquerda. Em um conhecido texto, Novos Rumos da Geografia Brasileira, Santos retoma a definição de La Blache, no século XIX de “ciência dos lugares” como um problema. Em sua opinião, a Geografia deveria se posicionar como “ciência dos homens”. Vocês já podem imaginar onde isto vai dar… Embora não admitisse e até lutasse pelo reconhecimento acadêmico da geografia, na prática, sua proposição a tornaria uma subárea da sociologia. Nada contra esta outra ciência (muito pelo contrário), mas não é este o foco da integração entre áreas ambientais e sociais, a interface da geografia, como temário tradicional e método específico. Outra recomendação esclarecedora é que quando um marxista, mesmo que heterodoxo fala em nome das humanidades, se propõe um reducionismo das ações desta espécie animal, pré-determinada pelo que Marx tinha em mente com sua teleologia objetiva da história.[7] Daí, quando se fala em “perspectiva holista”, não se pretende uma diversidade metodológica disciplinar, mas algo que caiba dentro do que eles, marxistas pensam que seja o resumo, o abstract de um compêndio histórico, seja do que passou, seja de seu devir histórico. A evolução que teríamos com o desenvolvimento tecnológico e, adoção de técnicas estatísticas, obviamente não seria bem vista, uma vez que seja “a favor do Capital”. Qualquer coisa que tenha tom pragmático, que seja útil, que forneça subsídios para o planejamento (individual, corporativo, governamental etc.) não será bem vista porque, segundo o obscurantismo marxista trama contra a “auto realização humana” e “libertação da tirania do mercado”. Em um trecho do supracitado artigo, Santos compara a nova geografia com a empirista trazida do século XIX:

“Após a Segunda Grande Guerra, o debate se faz entre, de um lado, os que buscavam aferrar-se a uma maneira tradicional de colar ao real, herdada do período precedente, o que frequentemente faziam segundo um método ideográfico,[8] empiricista e fragmentador e, de outro lado, os que, sob os auspícios de novas metodologias, terminavam por substituir a realidade pela ideologia. Prisioneiros, estes últimos, de utilitarismos diversos, ao serviço dos quais obstinadamente colocavam técnicas sofisticadamente elaboradas, alcançaram sem dificuldade, um divórcio total em relação à objetividade que diziam perseguir. Partindo de abstrações sem base no real, não podiam ir além do ideológico. Enquanto isso, apresentando-se como uma alternativa à nova corrente tornada hegemônica porque ao serviço da renovação do sistema capitalista, aquelas mesmas formas cediças e tímidas de aprender a realidade terminaram por reforçar os argumentos que desejavam contrariar, em virtude de sua impotência teórica e de sua fragilidade metodológica” (Santos, 1988, p. 210-211. Grifos meus).

Interessante que para Santos, os métodos e perspectivas dos quais discorda são

CAPA 02

Prova inequívoca da superioridade capitalista sobre o comunismo: a península coreana durante a noite.

“fragmentadores” ou “substituem a realidade pela ideologia”. Como se o marxismo que serve de base a sua assim chamada ciência não seja uma das formas mais obtusas de ideologia. “Integrar a realidade” em sua visão é condicionar todo o estudo, seja em seus primórdios ou maturidade ao materialismo histórico e dialético. Ora, faz parte do próprio desenvolvimento científico que novos problemas e modelos paradigmáticos sejam descobertos e desenvolvidos. Atrelar tudo que ainda está por vir a uma visão já datada do século XIX é que é profundamente anticientífico. Neste sentido, a acusação que faz a nova geografia, “quantitativista”[9] de se sujeitar a uma ideologia tem como premissa de que o marxismo que lhe serve de fio condutor (a) não é ideológico, o que seria uma piada de mau gosto ou; (b) seria uma ideologia acertada, que condiz com as necessidades de compreensão da realidade. A desonestidade intelectual aí encontrada nas palavras de Milton Santos não é por ele acreditar que a luta de classes e seus reflexos na organização territorial sejam um norte teórico, mas porque ele adjetiva outras perspectivas sem pô-las em confronto, orientado um séquito de professores a adotarem outra perspectiva sem avaliar e pesar os resultados de cada uma.

A geografia pragmática, teorética ou quantitativa, como veio a ser conhecida, este alvo da crítica de Santos era (e é) útil. Empresas e governos solicitam seus serviços, seja para relatórios de impacto ambiental, prospecção de recursos ou planejamento de localização de empreendimentos privados ou públicos. Como isto está inserido (e em grande medida propiciado) no capitalismo, se é útil ao capitalismo, não questiona este sistema econômico, pensariam os marxistas. Obviamente que o espírito pragmático não irá perder tempo com pretensões revolucionárias, até porque após a sedimentação da economia de mercado como único sistema econômico viável e a democracia como regime político, todas as revoluções demonstraram comprovadamente serem totalitárias, claramente opressoras, quando não genocidas mesmo. Daí seu ódio e crítica injusta ao acusá-la de perda de objetividade. Ora, objetividade se tem quando se tem um objetivo e este não era a derrocada do capitalismo. Em que pese o fato de nem sempre um cientista poder enxergar com precisão as causas de um problema como, por exemplo, o estabelecimento de favelas, criminalidade associada a faixas de renda ou áreas de convívio, poluição e endemias etc., a tentativa e erro faz parte do procedimento científico até o refino de métodos de estudo ou reorientação dos mesmos. Santos sugerir que houve um fracasso desta corrente em resolver problemas derivados do capitalismo se assenta no fato de que nem sempre a descrição, por melhor que seja esta, aponta para uma relação de causalidade. Mas mesmo assim, isto é o fazer ciência que difere anos luz, de adotar um princípio filosófico com a vã pretensão de que este já contenha em si a verdade. Devido a esta corrente (pseudo-)científica que é a geocrítica, a geografia entrou verdadeiro período de trevas intelectual. Mas, o pior ainda estaria por vir…

A que público estes acadêmicos se direcionam? Aos professores da educação básica (fundamental e média). Seus serviços e propostas iriam ajudar na desconstrução do que tínhamos como sistema de ensino. Em 1990, com o titulo de “Uma Contribuição à Reflexão do Ensino de Geografia”, dois professores de Geografia do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) propuseram uma metodologia de ensino da disciplina que explicita o que dissemos até aqui. Em primeiro lugar, eles não vão direto ao ponto, pois a doutrinação nem sempre é clara para quem a exerce. O hábito de repetir certas teses como papagaio é porque se crê, piamente, que esta seja uma verdade incontestável. No caso, os autores começam como se deve, abarcando os princípios geográficos clássicos,[10] como a conexidade e atividade que ficam bem expressos em passagens como esta:

“Pensamos que não existem ‘receitas’, principalmente se considerarmos as diferenças existentes no espaço e nos alunos,[11] entretanto, talvez, passos fundamentais:

— Definição do que se entende por espaço geográfico

— Aspectos que podem ser considerados (Homem;[12] Natureza; Produção)

— Análise da natureza como totalidade. Pensamos na possibilidade do estudo da natureza a partir de questões ambientais, como por exemplo:

  • a remoção das dunas no litoral;

  • o alargamento das ruas nos bairros da cidade;

  • o assoreamento dos rios;

  • os desabrigados pelas enchentes;

  • a canalização dos riachos;

  • a construção das barragens;

  • a construção das estradas;

  • a poluição urbana;

  • a ocupação de encostas e terraços fluviais;

  • o esgotamento dos solos” (Castrogiovanni; Goulart, 1990, p. 116).

Aqui cabe a pergunta de por que a importância dada ao estudo da produção e não ao consumo? Como um não existe sem o outro, por que não considerá-las em conjunto, já se tratando da economia mesmo? Bem, para qualquer um que conheça um mínimo de teoria marxista sabe da pouca importância dada ao consumo ou à economia de mercado como um todo. A consequência lógica desta predisposição é tomar a produção isoladamente. Uma vez sendo porta de entrada para as teorias marxistas, as classes sociais fundamentais, burguesia e proletariado não se definirão pelo consumo, pela renda, mas justamente pelo seu lugar na produção. Obviamente isto já deveria ser suficiente para desautorizar a teoria frente ao mundo contemporâneo em que muitos operários auferem renda maior que aquilo que Marx considerava classes médias a sua época, assim como hoje em dia muitos sócios ou investidores e dependendo do cargo, funcionários ou empregados recebem salários muito maiores do que certos empresários, os burgueses da atualidade. Mas, sabem como é, quando se lida com fanáticos, qualquer argumentação racional se torna inútil.

Sei que muitos dos leitores devem ter achado normal a lista de problemas urbanos acima, até interessante. Sim, esta é uma foto, um flash da exposição, mas bem devagar, os conceitos que induzem o aluno a pensar de uma forma preconcebida vão aparecendo. Não é por acaso que a categoria de totalidade, já comentada aqui mesmo surge, ela é fundamental para a metodologia marxista. Quando se diz “análise da natureza como totalidade” não é a interação dos fatores de influência e elementos da biosfera, mas a totalidade em que o ser humano vive, i.e., seu sistema econômico, político, simplesmente tudo visto como determinado pela dialética marxista. Daí, o que se entenderá por natureza será mera consequência e não, como se esperaria, um universo com o qual se interage.

Mais adiante, os autores propõem que seus alunos aprendam e discutam sobre protocolos de ação para resolução dos problemas diagnosticados no meio urbano:

“A chave para a discussão dos problemas da cidade e análise das possibilidades de solução:

— Limitar o uso do solo urbano?

— Construção de bueiros?

— Não asfaltar?

— Executar o traçado urbano considerando as curvas de nível?”

(Castrogiovanni; Goulart, op. cit., p. 117).

Até aqui está perfeito, as considerações foram úteis e se relacionam à análise precedente, mas o problema é que não cessa aí… O passo seguinte é fundir a análise técnica a uma postura política. É como se as dinâmicas da natureza demandassem uma solução histórica para o problema onde as ciências exatas e naturais, para serem ciências dependessem dos rumos preditos pelo materialismo histórico e dialético. Veja, mesmo que autor X ou Y não se assuma como marxista ou comunista, isto não se faz necessário se as categorias, teorias e conclusões obedecerem uma determinada metodologia marxista. Acreditar na utopia de Karl Marx é uma forma de marxismo forte, inconsequente. Mas pensar o mundo e justificá-lo de modo análogo, quando não, igual ao que fez o filósofo é o que chamamos de marxismo fraco. Esta modalidade é pior devido a sua sutileza. Vejamos a sequencia aqui:

“É importante destacar que muitas preocupações do fazer pedagógico são parte do cotidiano. Ensinar pressupõe aprender. Não se aprende se não houver interesse. A construção do conhecimento deve utilizar formas diferenciadas de ação proporcionando situações que considerem os aspectos fisiológicos, psicológicos e sociológicos do aluno a fim de estabelecer um nível de motivação. Para tanto se faz necessário ter presente a questão da competência. (…) Somente o professor que assume esta competência terá a possibilidade de alcançar os fins sociais do ensino, fins estes defendidos por sua postura política” (Castrogiovanni; Goulart, op. cit., p. 118. Grifos meus).

Digam-me, o que o fazer pedagógico aprender constantemente para ensinar tem a ver necessariamente com assumir uma postura política? É através da mistura de banalidades e senso comum com doses homeopáticas de discurso panfletário que se produz um mix de doutrinação que faz de um Paulo Freire ser considerado o patrono da educação brasileira. Mas, pior do que o “patrono da educação brasileira” já o fez, o que dizer de misturar conhecimento científico com ideologia marxista? Dá muito mais credibilidade e crianças ou adolescentes são presas fáceis. Pessoal, isto acontece todos os dias, com recursos públicos financiados por vocês. Isto tem que ser questionado, qual a moralidade em termos que subsidiar o MEC para isto? Como eu disse, muitos nem percebem que há marxismo aí e, realmente, do tipo puro não se pode dizer que há, mas este esquerdismo que usufrui do ensino e suas técnicas de observação levou a deturpação completa deste. Em resposta a minha crítica, os professores doutrinadores dirão que “não existe ciência neutra”, mas estão errados… não em criticarem a pretensão de neutralidade da ciência, mas em proporem uma falsa questão: não é de neutralidade que se trata, mas de objetividade. Voltaremos ao tema a guisa de conclusão…

No inicio é assim mesmo, sutil. Não parece ser algo tão crítico que polua todo o ensino tradicional diriam alguns mais acomodados e céticos. Como diz o ditado, quem duvida é louco. Vejamos três anos depois, a 4ª edição de um livro didático. Sim, livro didático ou você achou que estas ideias ficariam restritas aos periódicos acadêmicos? Não, não… Foram direto para o colo dos alunos:

“Ir além das aparências significa considerar que por trás de toda paisagem temos, necessariamente, uma dinâmica particular que a determina, que a constrói, que a mantém com determinada aparência, por exemplo, de floresta, de deserto, ou até mesmo de cidade. (…)

O espaço, que é de fluxos para a realização da atividade produtiva, visto pela ótica da maior parte da população que o habita, é também um espaço de conflitos por causa das desigualdades e contradições que a dinâmica da produção impõe, especialmente àqueles setores da população ligados ao trabalho.

Por causa disso criam-se as resistências e constituem-se os movimentos populares de pressão que, muitas vezes, caminham na contramão dos fluxos produtivos, isto é, contra a dinâmica que estes pretendiam para a maior parte da população: trabalhar o máximo; receber o mínimo e garantir a reposição da mão-de-obra para a continuidade e intensificação da produção, através da geração constante de filhos” (Pereira, 1993, p. 2; 216. Grifos meus).

Ficou claro agora o que os autores entendem por “ir além das aparências”? Não existe competição, não existe inovação, não existe progresso material, não existe ordem social, não existem culturas etc. É tudo uma questão de necessidades de reprodução do Capital. Nisto virou a Geografia Humana na maior parte dos livros didáticos adotados em sala de aula.

Mas a história é imprevisível… Mesmo quando tudo parece um caminho sem volta. Nosso colega, Luis Lopes Diniz Filho lançou um livro pioneiro na área, Por Uma Crítica da Geografia Crítica que pretende “dissecar os discursos elaborados com base nos pressupostos da geocrítica” (2013, p. 24). Nesta excelente obra, o autor discute das raízes marxistas desta geografia crítica, suas teorias do espaço, utopias em confronto com os avanços reais do capitalismo à distorção feita da realidade brasileira passando por temas quentes como Reforma Agrária e Planejamento Urbano. Os conhecidos autores desta corrente e outros influenciados por ela também são analisados no livro. Ou seja, se dá nome aos bois. A propósito, como já dissemos, não é necessário que alguém se assuma integralmente marxista ou nem que se diga influenciado por esta filosofia para, de fato, analisar a realidade segundo os moldes marxistas:

“Nos dias de hoje, são poucos aqueles que se rotulam nesta ou naquela vertente de pensamento geográfico, bem ao contrário do que aconteceu nas fases de efervescência das ‘revoluções’ tentadas pela geografia quantitativa e pela geografia crítica. Apesar disso, elaborar diagnósticos catastrofistas sobre temas como violência urbana, ecologia e exclusão, para em seguida atribuí-los à lógica do capitalismo e à democracia representativa, soa para os geógrafos atuais como se fosse a enunciação de verdades evidentes por si mesmas, e não como a formulação de hipóteses que precisam ser postas à prova. Os pressupostos da geografia crítica se entranharam tanto no modo de pensar dos geógrafos que eles já não reconhecem discursos desse tipo como teorias próprias de uma determinada corrente intelectual, pois é como se os emissores desses discursos estivessem mencionando dados tão notórios como ‘Cabral chegou ao Brasil em 1500’. É por isso que os pressupostos da geocrítica são repetidos ininterruptamente por quase todos os geógrafos e, mesmo assim, há quem diga que a geografia crítica já acabou ou que nunca existiu como corrente especifica de pensamento geográfico!” (Diniz, 2013, p. 24).[13]

Mas eles estão aí, com sua retórica camaleônica, seja na forma e cores de um ambientalista-melancia (“verde por fora, vermelho por dentro”), seja na voz de um anarquista (que ironicamente se pensa “libertário”) e tem horror à liberdade de empreender e à liberdade de possuir a propriedade, seja na voz do geógrafo cultural que despreza a recriação cultural se esta envolver transações econômicas e usufruir do capitalismo etc. Eles estão aí, cabe a nós identificá-los e combatê-los em nossa guerrilha cultural.

***

Mas, existe neutralidade científica? Como observamos acima, esta não é a questão. Digamos que alguém foi abusado sexualmente em sua infância? Nem por isto seria impossível se tornar um psicólogo estudioso de transtornos derivados desse tipo de agressão. Mais difícil, provavelmente, mas não impossível. O que importa é que seus estudos deverão ser submetidos à constante revisão e crítica, para confronto com teses divergentes ou até opostas. Este passo é de fundamental importância, não só para quem faz ciência, mas para quem julga e não será por acaso que em um julgamento existe tal confronto de teses da acusação e da defesa. Só que diferentemente não temos um juiz e sim, a revisão constante feita pela própria comunidade científica em busca de novos fatos ou da revisão metodológica do estudo de fatos já conhecidos.

Este texto já ficou um pouco longo, mas serve para chamar atenção de meus leitores que quando se fala em geografia, cuidado! Não existe uma, nem uma única corrente, mas várias e várias seções, subáreas etc. Portanto, não comprem gato por lebre indo atrás de qualquer doutor que arrote que é geógrafo como se isto fosse sinônimo de autoridade. A única normalidade aí presente é presumir que o título encerra em si mesmo a prova e convenhamos, nossas acadêmicas estão repletas de súditos que preferem argumentos de autoridade à autoridade dos argumentos. Como nossas academias estão prenhes de marxistas e outras variantes ideológicas, eles normalmente não se assumem desta forma nos passando a falsa percepção e retórica mentirosa de que “sua ciência”, como um todo aceita e endossa análises de uma ideologia que só serviu para disseminar a ignorância, a violência e a submissão. Durante muito tempo as esquerdas criticaram o que chamavam de “discurso único”. Agora é nossa vez de acabar com o discurso único que ela própria criou no seio acadêmico. Comecemos, pois a desmistificar mais este bastião totalitário com a lança da liberdade de expressão.

 

Referências:

CASTROGIOVANNI, A.C.; GOULART, L.B. “Uma contribuição à reflexão do ensino de geografia: a noção de espacialidade e o estudo da natureza.” Terra Livre 7. São Paulo : Editora Marco Zero/AGB, 1990.

COSTA, Wanderley Messias da. Geografia Política e Geopolítica : discursos sobre o território e o poder. São Paulo : HUCITEC : EDUSP, 1992.

CRISTALDO, Janer. “A universidade é um galinheiro onde raposas velhas vão caçar.” Disponível em: <http://cristaldo.blogspot.com.br/2014/04/a-universidade-e-um-galinheiro-onde.html>. Acesso em: 13 de abril de 2016.

DINIZ FILHO, Luis Lopes. Por uma Crítica da Geografia Crítica. Ponta Grossa : Editora UEPG, 2013.

ENCYCLOPEDIA BRITANNICA. Friedrich Ratzel: german geographer. Disponível em: <http://global.britannica.com/biography/Friedrich-Ratzel>. Acesso em: 16 jun. 16.

EPL. “Carta aberta aos estudantes.” Estudantes Pela Liberdade – Grupo Henry Maksoud. Disponível em: <https://www.facebook.com/notes/grupo-henry-maksoud/carta-aberta-aos-estudantes/1079085762153344>. Acesso em: 15 jun. 16.

HEIDRICH, Anselmo. “Uma história sem sujeito.” Interceptor. Disponível em: <http://inter-ceptor.blogspot.com.br/2008/04/uma-historia-sem-sujeito.html>. Acesso em: 17 jun. 16.

HEIDRICH, A.; FERRO DE LIMA, F.R.; DINIZ FILHO, L.L. Não Culpe o Capitalismo. Curitiba : Fernando Raphael Ferro de Lima, 2015.

JOHNSTON, R.J. Geografia e Geógrafos : a geografia humana anglo-americana desde 1945. São Paulo : DIFEL, 1986.

LA BLACHE, Paul Vidal de. Principes de Géographie Humaine. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/>. Acesso em: 16 jun. 16.

MORAES, Antonio C. R. (org.). Ratzel. São Paulo : Editora Ática, 1990.

MOREIRA, Ruy. O que é Geografia. São Paulo : Brasiliense, 1981.

PEREIRA, Diamantino Alves Correia. Geografia : ciência do espaço : o espaço mundial, 2º grau / Diamantino Alves Correia Pereira, Douglas Santos. Marcos Bernardino de Carvalho. – 4ª ed. rev. e atual. – São Paulo : Atual, 1993.

SANTOS, Milton (org.). Novos Rumos da Geografia Brasileira. 2ª Ed. São Paulo : HUCITEC, 1988.

WIKIPEDIA. Paul Vidal de La Blache. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Vidal_de_La_Blache#Obras>. Acesso em: 16 jun. 16.

WOOLDRIDGE, S.W.; EAST, W.G. Espírito e Propósitos da Geografia. 2ª Ed. Rio de Janeiro : Zahar Editores, 1967.

 

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Fas est et ab hoste doceri – Ovídio

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[1] Sempre é bom lembrar que por “liberais brancos”, o autor, ainda que nascido no Reino Unido está se referindo aos liberais nos costumes ou na moral que, no contexto especificamente americano significaria algo como a esquerda atual. Para nós no Brasil, que herdamos a tradição linguística europeia, este sentido é raro e o termo liberal, normalmente apresenta sua conotação original da economia, em prol do livre-mercado.

[2] Em “A Universidade É Um Galinheiro Onde As Raposas Velhas Vão Caçar”, Janer Cristaldo pega uma raposa no pulo, isto é, o que Frei Betto disse em seu campo de caça, a Universidade:

“Ao falar de fracasso do socialismo na Europa e fracasso do capitalismo no ocidente, o frei exclui a Europa do Ocidente. Onde ficará então o Ocidente? Na Sibéria? Na Mongólia? É espantoso que um público universitário ouça uma sandice destas sem vaiar o palestrante. Se bem que quase nenhum universitário hoje, seja professor ou aluno, saiba dizer o que ocorreu em 9 de novembro de 1989.
Concluindo: o orgânico não precisa ser organizado. Não é permissível comparar um sistema artificial, distanciado do real, nascido de uma teoria utópica, com uma economia que surge espontaneamente, decorre da própria natureza humana e hoje é almejada por todos os países que um dia foram comunistas. Capitalismo não tem profeta, não tem livro nem é imposto, manu militari, por Estados ditatoriais. Há teorias sobre o capitaliso? Há. São teorias que tentam explicá-lo, não teorias que surgem do nada para criar um modelo de organização social.
La universidad es un acuário, donde las nenas ván pescar – dizem os espanhóis. Chez nous, é um galinheiro onde raposas velhas vão caçar” (http://cristaldo.blogspot.com.br/2014/04/a-universidade-e-um-galinheiro-onde.html. Acesso em 13 abr. 16).

[3] Dia 7 de abril passado, um grupo de estudantes e membros do Estudantes Pela Liberdade (EPL) em divulgação de seu segundo seminário na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foram hostilizados por dois professores, um de forma irônica e outro de forma acintosa. Para quem teve acesso ao vídeo divulgado de forma restrita na internet pode constatar no vocabulário deste segundo caso as categorias utilizadas e cujas premissas remetem ao puro marxismo, “analisamos o liberalismo sim, mas de forma histórica”. Para quem já está habituado aos cacoetes intelectuais desses professores sabe que por “forma histórica” se entende somente o que eles consideram como “história”. Outras visões simplesmente não existem e são amplamente hostilizadas ou alvo de chacota, para que seja autoatribuído ao autor desse escárnio uma pretensa superioridade, já que nunca a obtém em um debate ao vivo e civilizado. Aqui segue o link da carta aberta dos estudantes pelo incidente ocorrido: https://www.facebook.com/notes/grupo-henry-maksoud/carta-aberta-aos-estudantes/1079085762153344. Eu até tolero (embora não concorde com nada do que dizem) marxistas como forma de vida pensante, mas covardes me causam asco. E para quem viu o que ocorreu, entende o que quero dizer. Os professores em questão usaram do recurso vil (que tanto contestam em seus inimigos no poder) da autoridade conferida a eles para ensinar, no intuito de somente calar e subjugar o espírito livre de quem ousa discordar de suas estultícias.

[4] Pode se argumentar que a influência que o Nazismo teve das ideias de Ratzel foi uma “má interpretação” ou deturpação, como queiram, mas o fato é que há um nexo teórico, mesmo que isto não seja suficiente para atribuir à Friedrich Ratzel a pecha de nazista. Influenciar ideologicamente um corpo social não implica em assumir as teorias derivadas por outros interpretes, nem tampouco ter responsabilidade sobre suas ações. Fosse assim, toda ação violenta em nome de uma religião necessitaria ter sua causalidade comprovada em um livro sagrado, o que não é verossímil, pois a cultura, inclusive do campo acadêmico para a esfera política e comportamento de massa é muito dinâmica, para não dizer flexível mesmo.

[5] A referência a esta obra foi extraída do site brasileiro, Domínio Público (<http://www.dominiopublico.gov.br/>), cuja data de edição não é fornecida. Na página brasileira do Wikipedia (<https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Vidal_de_La_Blache#Obras>. Acesso em: 20 mai. 16), a publicação da obra consta sendo de 1922, com edições póstumas.

[6] Termo este que resultou de uma má tradução do inglês, theoretical, que significa simplesmente teórica.

[7] Para maiores esclarecimentos, acessar meu artigo sobre a visão histórica em Karl Marx: http://inter-ceptor.blogspot.com.br/2008/04/uma-historia-sem-sujeito.html.

[8] Erro de Milton Santos, o método geográfico herdado do século XIX não poderia ser ideográfico, que se diz do (alfabeto ou escrita) que representa ideias pictórica ou graficamente. Idiográfico foi o termo desejado, que corresponde a um método de conhecimento científico que trata de problemas isoladamente. Ele se referia aqui à Geografia Tradicional, de La Blache e outros ao enfatizar as singularidades locais e regionais, o que não é justo, pois mesmo estes autores procuravam tecer comparações entre fatos e fenômenos. Lembremos que, ao contrário do marxismo, a geografia de antigamente não portava um método nem tinha pretensão de deter um manual completo e acabado sobre o mesmo. Já para quem decorou O Capital…

[9] Esta qualidade é utilizada como defeito por aqueles que se opõem, não só à geografia, mas a toda ciência social que se valha de métodos sofisticados de aferição quantitativa, pressupondo, erroneamente, que não haja, antes e depois, uma avaliação qualitativa desses mesmos dados. Ora, antes de se debruçar sobre séries históricas de dados requer que saibamos o que procurar, o que, obviamente, subentende premissas filosóficas, bem como uma concepção teórico-metodológica. Em parte compreendo o pavor que as esquerdas incrustadas nos cursos de humanas tem da matemática em geral: a maioria desses críticos não sabe ou tem ojeriza a tarefa de calcular e, muitas vezes, optaram por tais cursos justamente “para não terem mais que ver nada de matemática”. Daí sai toda uma produção acadêmica sem compromisso com o levantamento de dados e ninguém sabe por que.

[10] Os princípios geográficos clássicos são os seguintes:

  • Princípio da Extensão, concebido por Friedrich Ratzel (1844-1904) definido como a delimitação do fato a ser estudado e sua localização na superfície terrestre;
  • Princípio da Analogia, concebido por Karl Ritter (1779-1859) e Paul Vidal de La Blache (1845-1918) em busca comparações com outros fatos na superfície terrestre para estabelecimento de similaridades e diferenças;
  • Princípio da Causalidade, concebido por Alexander Von Humboldt (1769-1859), que seria básico para qualquer conhecimento que se diz científico, ao buscar a causa (ou causas) dos fenômenos ou fatos estudados;
  • Princípio da Conexidade (ou Interação), concebido por Jean Brunhes (1869-1930), advoga que os fatos não são isolados, mas se relacionam entre si, localmente ou em áreas mais abrangentes;
  • Princípio da Atividade, também concebido por Jean Brunhes, considera que a realidade está em constante mutação e, portanto, se faz necessário entender o passado para analisar o presente e tentar traçar prognósticos futuros.

[11] Este tipo de consideração “no espaço e nos alunos” soa estranho a quem não é da área, mas se explica quando por “espaço” se faz menção ao território, seja ele de uma escala próxima, o bairro, o distrito, a cidade etc. até uma macroescala, a região, a nação, o continente etc. Quanto a “alunos”, a referência se dá pela pedagogia, uma vez que os alunos todos não tem o mesmo nível, origem, cultura etc. O problema disto é que não é viável propor e, muito menos, exercer um ensino totalmente individualizado e, em determinado momento, o agrupamento e classificação se tornarão necessários. Atualmente, uma característica da ação pedagógica a guisa de “solução” acaba se dando pela categorização em “nichos culturais” e isto leva, inevitavelmente, à ação do estado ditar o que é a cultura de determinado grupo e como ela deve ser ensinada. Quando penso em totalitarismo, não é apenas a repressão física que me vem a mente, mas a própria expressão cultural livre de formalismos institucionais.

[12] Esta passagem é interessante… Aqui, a atual ideologia de gênero que vê na divisão sexual (biológica) uma forma de coerção social, sobretudo quando o substantivo Homem é tomado como sinônimo de humanidade, dificilmente aprovaria esta definição e, provavelmente, sugeriria a palavra sociedade como substituto adequado.

[13] Conheci o Profº Diniz por intermédio seu ex-aluno, Fernando Raphael Lima de Ferro, no que foi uma grata surpresa pela conjugação de ideias. Como não poderia deixar de ser, também lançamos uma obra com textos dos três autores, Não Culpe o Capitalismo que, dentre outros assuntos há críticas à chamada Geografia Crítica que peca por fugir da autocrítica como o diabo foge da cruz. Acessem o blog do livro para maiores detalhes: http://naoculpeocapitalismo.blogspot.com.br/. E caso, se interessem em adquiri-lo, este post explica como: http://naoculpeocapitalismo.blogspot.com.br/2015/09/links-para-adquirir-seu-livro-aqui.html.

[i] Professor de geografia licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em geografia humana pela USP em 2008. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo.